Depois de um acidente que tira a mobilidade de Rodrigo, ele e a esposa Laura, personagens principais, vivem os conflitos da alegria de viver dele em contraste com a morbidez dela. Laura não consegue se libertar do sentimento de culpa, por ter sido a causadora do acidente que o invalidou. Diálogos teatrais de peças conhecidas são o fio condutor da trama. O contraponto cômico é dado por Paloma, leitora voraz de fotonovelas e amiga do casal, obcecada em achar seu príncipe encantado, além das personagens de Benta Maria, a empregada doméstica, e Uóloce, o garagista do prédio, louco por discos voadores. Clarice, irmã de Rodrigo, é o outro foco de conflito. Ela também tem sua identidade primitiva resgatada, graças à atitude positiva do irmão. O final feliz cabe ao poder da palavra, de forma particular o poder da palavra encenada que liberta Laura do poço sem fundo em que ela se deixara cair.
“PALOMA — (Dando seu melhor sorriso) Oi, Laura! Tudo bem? O Rodrigo está?
LAURA — (Um tanto fria) O Rodrigo, como todo mundo sabe, sempre está, Paloma. Só que, agora, ele está dormindo.
PALOMA — Ah, peninha... É que eu trouxe uma peça nova, sabe? Tão engraçada, Laura — até você ia morrer de rir! Ai, desculpe, não queria ofender. Bem que minha mãe dizia: “Paloma, controla a língua!” A língua é um problema, né? Pois é, mas se ele tá dormindo...
(Enquanto Paloma fala, enrolando os cachos negros com um gesto nervoso e infantil, Laura permanece imóvel. Luz vai acendendo, aos poucos, sobre o leito de Rodrigo que grita:)
RODRIGO — Laura, será que eu ouvi direito? Se for a Paloma com uma peça nova, manda entrar que eu já acordei!
LAURA — (Girando a cabeça, mas não o olhar, na direção de Rodrigo) O que você disse?
(trecho da peça O QUE VOCÊ DISSE?). |